Por que o Bitcoin vai, sim, mudar o mundo.

Antes de começar a expôr minha opinião contrária ao que o Allex Ferreiraescreveu neste texto, acho que seria interessante deixar explícito meu contexto educacional e profissional para que você, leitor, possa chegar às suas próprias conclusões sobre meus posicionamentos. Também gostaria de dizer que esse texto reflete apenas a minha opinião e respeito totalmente o posicionamento do autor, que no passado contribuiu muito para o crescimento do mercado de criptomoedas aqui no Brasil.

Primeiro de tudo, eu não sou desenvolvedor, tampouco conheço as especificidades técnicas do Bitcoin — e de criptomoedas em geral — nesse quesito. Em segundo lugar, sou libertário, acredito acima de tudo que o Bitcoin tem alguns problemas, mas os incentivos que permitiram sua existência são fortes o suficientes para serem considerados um ativo superior ao correspondente estatal. Por fim, sou um economista austríaco, para os que não têm familiaridade, isso significa que eu acredito acima de tudo na propriedade, no mercado e na liberdade.

Bom, dada essa pequena introdução, vou colocando abaixo todos os pontos em que eu discordo e, eventualmente, concordo com o autor do texto.

Logo no início do texto, no segundo parágrafo, o autor diz:

“ No início do meu aprendizado sobre o protocolo, eu acreditava que todas as pessoas, em um futuro próximo, aceitariam o Bitcoin como meio de pagamento, que os governos não poderiam fazer nada para detê-lo e que a sociedade passaria a funcionar de maneira bastante diferente.”

Existem três erros nessas crenças. O primeiro é que nem todas as pessoas vão aceitar Bitcoin como meio de pagamento, nem num futuro onde Bitcoin supostamente fosse o principal ativo financeiro em circulação no mundo. Acreditar em tal suposição seria o mesmo que acreditar que hoje todas as pessoas do mundo aceitam dólar, ou ouro. A probabilidade disso acontecer é tão baixa que deve ser desconsiderada.

Em segundo lugar (apesar de “futuro próximo” ser uma proposição subjetiva) o processo de aceitação e absorção do Bitcoin dentro do mercado não acontece de maneira rápida. Historicamente, tecnologias tão disruptivas quanto o Bitcoin também enfrentaram o crivo do tempo para serem amplamente adotadas pela sociedade. E, se tratando do principal ativo que o estado tem controle, não poderia ser diferente. Isso nos leva pro terceiro erro.

O governos podem e já estão se movimentando contra o Bitcoin. Isso já era esperado por aqueles que viram algum valor no Bitcoin quando ele valia quase nada.

O tempo que cada tecnologia levou para atingir 50 milhões de usuários.

Esses três erros basicamente mostram que houve um erro de expectativa por parte do autor, ou talvez pouco conhecimento das dinâmicas de mercado na época.

Outra parte que me chamou atenção foi:

“São vários os motivos que hoje me fazem discordar dos discursos propagados por libertários e anarquistas sobre a essência revolucionária do Bitcoin. O primeiro deles diz respeito ao fato dessa tecnologia ser um troço extremamente (repito: extremamente!) complexo e difícil de ser utilizado. Em outras palavras, não é para qualquer um.

É provável que o (a) estimado (a) leitor (a), neste momento, esteja pensando que não é tão difícil assim baixar uma carteira no celular e mandar um punhado de dígitos (satoshis)de um lado para o outro. Mas a verdade é que uma ínfima parcela da população mundial teria disposição e capacidade cognitiva para fazê-lo.”

O maior problema que vejo nessa afirmação é o fato de o autor desconsiderar o fator tempo. Nenhuma tecnologia na história foi absorvida de maneira instantânea pela sociedade[1], existe uma curva de aprendizado para cada uma delas. Mesmo a Internet — hoje em dia uma ferramenta indispensável — demorou pelo menos duas décadas para ser “dominada” pelo cidadão médio, e ainda não chegamos nem a 80% de penetração mundial. Isso é um processo natural que só ocorre com sucesso em tecnologias que oferecem os incentivos necessários para que mais usuários venham a usá-las.

Tia aleatória mandando solicitações de jogo no Facebook.

Aceito o contra-argumento de que a experiência de usuário (UX) relativa às carteiras ainda poderá evoluir muito no futuro, porém vale lembrar que, na última década, o avanço nesse sentido foi pifiamente tímido.

Esse argumento vai de encontro com o que acabei de dizer acima: leva tempo para construção de uma estrutura mais adequada para as novas tecnologias do mercado, ainda mais sobre uma que tem um objetivo tão ambicioso. Gostaria de acrescentar que é possível (assumindo que eu possa estar errado) que muitas empresas escolheram, de um ponto de vista estratégico, priorizar melhorias na tecnologia em vez de UX uma vez que o Bitcoin sim, ainda é um mercado de nicho e também dada as inúmeras melhorias que o protocolo teve nos últimos anos. Escolher um design mais bonito pode te colocar numa posição pior competitivamente frente à um concorrente que priorizou um endereço que suporta transações mais baratas. Mesmo assim, existem profissionais que estão exclusivamente dedicados à trabalhar para melhorias de UX & UI em ferramentas relacionadas ao protocolo.

“Aqueles que argumentam que todas as pessoas precisam ser donas do próprio dinheiro, esquecem-se que a maioria delas não se importa nem um pouco que algum banco ou instituição financeira faça isso por elas. Se um banco oferece um serviço de forma honesta e eficiente, não há razão para não utilizá-lo.”

De fato, ninguém precisa ter posse do próprio dinheiro, e, se um banco oferece um serviço de forma honesta e eficiente, você realmente pode utilizá-lo, não discordo disso, afinal o dinheiro é seu. Esse jamais foi o argumento. Hoje utilizamos os bancos mais por uma questão de necessidade do que por vaidade. Chega a ser estranho ler isso de um brasileiro. Afinal, quem com acesso ao sistema bancário deixaria todo dinheiro fora dos bancos — em forma de cédulas — , em 2015, quando a inflação chegou à quase 11%? Suspeito que ninguém.

Do meu ponto de vista o slogan “be your own bank” está mais relacionado com o fato de você ter a possibilidade de se proteger de uma má gerência da economia sem ter a necessidade de confiar em um terceiro. Ainda assim, você pode continuar utilizando o falido sistema bancário quando achar necessário.

“Nubank transforma porta-giratória em peça de museu.” Os próprios bancos sabem do desafio que têm pela frente com o crescimento de novas tecnologias.

“E o que dizer da volatilidade do preço do Bitcoin no mercado? Alguém em sã consciência acredita que algo que sobe ou desce tão violentamente em questão de segundos pode ser ser usado para intermediar transações comerciais?”

Esse é um argumento peculiar que é muito repetido pelas mídias mainstream. O que eu particularmente defendo é que o fato do Bitcoin ser, hoje, extremamente volátil é um sintoma de que o mercado ainda é muito pequeno e não a causa do mesmo. O mercado de criptomoedas, especialmente do Bitcoin, deve ser vista de outra perspectiva. Tenho pouco conhecimento de mercados que funcionem 24 horas por dia 7 dias por semana que sejam negociados em tempo real com o mundo todo e com quase nenhuma barreira de entrada de novos usuários. Essa realidade permite que uma quantidade massiva de dinheiro circule de maneira muito rápida dentro dos mercados, e isso é claro que reflete nos preços. O ponto chave é que, esse novo dinheiro que entra, eu costumo chamar (desrespeitosamente, assumo) de “dinheiro burro”: basicamente são pessoas que não entendem perfeitamente onde estão colocando seu patrimônio e que estão em busca de valorização rápida e fácil. Esse perfil de investidor, ao menor sinal de queda, move novamente seu dinheiro para outra aplicação, o que causa as oscilações do preço.

No curto prazo, isso é ruim para o ecossistema, mas no longo prazo permite que mais pessoas tenham acesso à tecnologia e desenvolvam mais confiança, com isso, mais dinheiro vai sendo somado e menor vai ser o impacto dessa circulação do “dinheiro burro” dentro do mercado.

Qual seria o impacto no preço da Amazon em 2000 se um investidor vendesse o equivalente à USD 10 bi? E hoje?

“Entendo a visão dos indivíduos que o enxergam como uma ferramenta financeira revolucionária, mas reitero minha opinião de que o Bitcoin não é, e nem provavelmente será, tudo isso que dizem por aí.”

Para finalizar, eu concordo com essa afirmação. Na minha opinião, o Bitcoin tem potencial para ser a moeda que vamos utilizar para comprar um pão na padaria do seu Zé, no entanto não vai. O Bitcoin ser global, não significa que ele será utilizado amplamente por todos os estabelecimentos, em todas as situações, mas sim que ele será o padrão em negociações internacionais, envolvendo médias e grandes empresas, assim como o dólar é hoje. Eu diria até que o Bitcoin vai um pouco além disso, mas não vou me alongar nesse argumento.

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[1]Embora o Pokémon GO tenha demorado 19 dias para alcançar 50 milhões de usuários, eu não considero uma tecnologia disruptiva pois já se aproveitou de uma estrutura existente para seu funcionamento.

Por Leonardo Alves

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